
Minha Senhorita,
Perdão pela demora. Ando doente. Não te preocupes meu bem! Não digo doença carnal, mas sim prejuízos de espírito. Esclareço-te: minha visão desgasta-se a cada segundo, os ouvidos andam ruins; parece-me que bebi quarenta anos com água e açúcar. Sinto que meus escritos tornaram-se eternas quedas sobre penhascos, constantes suicídios bruscos. A dor só não me tomou a mente, pois ela mesma preencheu-se de mais fiel inveja.
Por que a inspiração que pousa por sobre os ombros de vários, como mais delicada amiga, age com mesquinharia quando se trata de minha pessoa? Pois como as estrofes que doam harmonia a tantos, a mim simplesmente ajuntam desassossego?
Logo virá o futuro e tu estarás aqui?
Volte depressa. Preciso que desvendes meus segredos como exímia feiticeira que mora em ti. Necessito saber do amanhã. Estarás lá ou posso já desistir?
Todas as palavras desta carta fluem como perguntas, o tempo rouba-me o que usurpei do mesmo um dia, a muito. Em minha velha juventude a fé tem raízes feitas de fortalezas cotidianas; então Helena, se eu pedir à cartomante que me traga você em três dias, ela conseguirá? Ou se pedir aos céus que me tragam este anjo de Deus que és para meus braços atenderá minhas súplicas ternas de amor? Tenho esta paixão incrustada no peito. Conheço-a por cada centímetro muito bem, pois a estudei em muitas das horas que a insônia concede-me.
Os pesadelos mal dão folga para sonhos impertinentes contigo. Abra os olhos meu bem, sonhe por mim; sonhe com o dia que preencherás meu corpo com o teu e assim finalmente uniram-se em cálido silêncio que só a madrugada tem, e o beijo assinará nosso casamento zombeteiro. Ah minha Helena! Já ouço tuas risadas inquietas assim que pedir-lhe a mão; então dirás um não tão frágil quanto cristal raro e logo depois espatifará o mesmo a dizer-me sim entre beliscões, sem dar-me descanso…
Minha cara luz divina, tu virás e então pintará minha vida de cores berrantes apenas pra que fique à tua moda. Com tua vinda poderei torcer o nariz do modo que tu mais execra apenas para ver tua braveza; depois repreenderei a excentricidade tua para que em segundos futuros eu possa dizer-te que minha admiração por ti toma força a todo instante.
(Espere chamam-me…)
Novamente peço: Venhas logo, pois já mudei os lençois que agora brilham em sua mais nova brancura. E agora parto, pois o jantar está posto e atrasos são abomináveis…
Com muitíssimo amor, teu Orlando.